sábado, 14 de outubro de 2017

O Leãozinho e a Formiga

O Leãozinho descansava na savana, entediado olhando folhas e galhos secos quando viu uma fila de formigas passando.
Achou interessante, quase fascinante aquela fila gigantesca marchando rumo ao monte de terra acumulada.
Aproximou-se do formigueiro e ficou olhando hipnotizado aquela engrenagem viva. Uma fila entrava carregando mantimentos e outra saía em busca de mais.
uma formiga mais graciosa que as outras com asas aproximou-se do Leãozinho e lhe perguntou:
  • Gosta do que vê Leãozinho?
  • Acho muito interessante, o trabalho de vocês é fascinante.
  • Humm, obrigada, nosso humilde formigueiro agradece. Mas diga leãozinho, e vocês leões, marcham em fila para encontrar mantimentos?
  • Na verdade não. Nós leões caçamos. As leoas se agrupam e cercam uma caça e depois comemos.
  • Nossa, que rustico. Um tanto selvagem não?
  • Nós somos caçadores.
  • Aqui nós coletamos, armazenamos, transformamos. Cada formiga tem uma função e cada função serve serve ao todo que é o formigueiro. Vejo que vocês oprimem as Leoas suas fêmeas não é…
  • Não, de modo algum…
  • Mas os leões tão maiores obrigam as pobres leoas a caçarem enquanto só observam, me parece exploração.
  • Nunca tinha pensado nisso.
  • É leãozinho, mas é bom pensar. Nunca questionou que só os leões mais fortes se alimentam bem? Tem os melhores lugares na savana, conseguem as melhores leoas… Aqui no formigueiro não temos tais diferenças, as formigas dormem no mesmo formigueiro, tem os mesmos direitos, não oprimem umas às outras. Não concorremos entre nós.
  • Poxa, parece bem legal.
  • Sabe leãozinho, não seria ótimo que os leões fossem como as formigas? Imagine que lindo, todos os leões marchando uns atrás dos outros sem diferenças de fortes ou fracos…
  • As leoas viriam juntas?
  • Melhor que isso leãozinho, não haveria leoas ou leões, esses são nomes que inventaram para determinar quem manda e quem obedece, chamaríamos todos de formigas, sem masculino ou feminino, apenas formiga.
  • Entendi, cada família de leões faria sua fila e...
  • Nada disso leãozinho, nada de famílias, nada de separação, seremos apenas um grande grupo de formigas...
Neste momento uma patada enorme acerta a formiga que discursava e destrói parte do formigueiro, revelando milhares de formigas que se apertavam nas entranhas da terra umas por cima das outras em um frenético trabalho de vai e vem.
Com um rugido enorme a leoa diz ao leãozinho:
  • Não dê ouvido aos insetos, não  vê que eles querem lhe enganar.
  • Mas mãe, ela estava falando coisas muito bonitas, sobre igualdade, sobre marchar juntos e sobre sermos formigas…
  • Leãozinho tolo, essas coisas são mentiras e artimanhas para destruir leões. Ela estava mentindo.
  • Como você sabe que era mentira? você nem a ouviu…
  • Leãozinho, quantas formigas tinham lá?
  • Milhões…
  • E quantas tinham asas?
  • Só uma… (responde com ar decepcionado e triste).
  • Viu, há palavras bonitas que disfarçam horríveis atitudes. Acabar com nossos valores, com nossos clãs, com nossa caçada… Ao invés de disputar a vida na savana andaríamos em filas guardando alimento para uma formiga aumentar suas asas.
  • Mas não teríamos que disputar, sem concorrência não haveria perdedores…
  • Isso não é vantagem filho, é covardia. Quando não há disputa é porque o vencedor já foi escolhido. É a luta para sobreviver que nos faz leões.
  • Eu gosto de ser leão...
  • Então aprenda filho, Leões não seguem formigas.


Helton Fesan

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Em Extinção

Quando somos pequenos a estranheza de ser o único é absurda. É o cúmulo do "não pertencencimento".
Eu fui um jovem Lobo-guará nessa situação.
Acho que o pior de viver assim é que na nossa cabeça  de lobo criança acreditamos realmente sermos uma espécie em extinção. Não temos a noção de que há outros (muitos) de nós.
Ser um ser em extinção é muito deprimente. As tartarugas marinhas, a baleia azul e até o último dinossauro que vagava sozinho na era glacial tem a minha mais profunda admiração e respeito. Eu sei o que vocês passaram e passam.
Mas enfim, cresci e a cada nova floresta ou savana um novo deserto particular se formava em meu peito e meu coração sozinho no meio.
Ao longe, na planície encontrava um igual a mim vagando sozinho ou em matilhas de outras espécies de Lobos europeus, tentando imitá-los, tentando enquadrar-se, tentando uivar igual, tentando caçar igual, tentando, tentando e tentando...
Mas Lobo-guarás são o que são e não adianta tentar ser o que não.
Eu ficava mais sozinho. Caçando o que podia e com medo de me arriscar nestas matilhas.
Acontecia uma coisa interessante e igualmente triste. Outras espécies que nem eram a minha, mas que por um motivo ou outro estavam também sozinhos, acabavam se juntando ocasionalmente a mim. Um lobo de perna quebrada, uma tartaruga órfã, um pardal sem uma asa... Não era exatamente uma matilha mas era um grupo, melhor que ser sozinho. Pra caçar era uma desgraça, pra se proteger pior ainda, mas por algum motivo era bom ficar junto... Talvez por entender que solidão mata.
Mas todo bicho cresce e eu também cresci.
Caçar sozinho se tornou um hábito e um lema. Evitar as matilhas ou se misturar a elas se tornou estratégia.
Os bichos solitários se adaptam.
Mas desde que Noé nos separou de par em par nos encontramos macho e femea, e eu, também me encontrei.
Uma Loba solitária me achou e comigo fez um lobinho.
Poxa que emocionante, enfim uma matilha com focinhos iguais ao meu.
Mas o filhote está na idade de aprender a caçar e nem tudo posso ensiná-lo, afinal, caçamos sozinhos.
As vezes, olhando ele perambulando solitário no serrado, ou olhando distante a matilha de lobos europeus caçar me pergunto: Não seria melhor se nós Lobo-guarás também formassemos matilhas?

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Debate sobre Igualdade OAB Santo André





Não era 13 de maio. Na verdade era 17 de maio de 2017.
O país continua dividido, ou ao menos artificialmente dividido.
Enquanto as notícias da mídia oficial dão conta de dividir pessoas, opiniões, acesso e conhecimento em duas bandas de uma única laranja, uma outra mídia, menos badalada e acessada tenta entender o mundo de forma mais coerente desafetada.
Na sala de reuniões da OAB de Santo André não reunimos especialistas, doutorados e PHD´s, não haviam antropólogos ou cientistas sociais e políticos, mas apenas 5 pessoas interessadas em entender em que pé anda a igualdade no nosso país.
Mais que isso.
Cinco pessoas genuinamente interessadas pela vida uns dos outros. Interessadas em saber se isso estava doendo, se ainda doía e se podia fazer algo para ajudar. Dr Maida, Diretor da OAB e advogado militante de muitos anos. Cabelos brancos, voz tranquila e aquele bom senso que nos conforta. Drª Alice, advogada e presidente da Comissão de pessoas com Deficiência, também na melhor idade nos brindou com 15 anos de experiência na ajuda ao próximo e mesmo assim os olhos brilhavam ao ouvir cada intervenção, cada raciocínio.
Rosana, com tantos anos de Militância no Movimento Negro participando da entidade Negra Sim, grande com seu rosto negro iluminado e terno nos ensinava que a vida tem sim mais que dois lados e que nem sempre ela é boa çpara quem deu a má sorte de estar do lado errado do que chamamos de oportunidade. Aliás, aprendi a origem de oportunidade com o Moçambicano José, que trouxe a experiência de um imigrante, e não sequestrado africano, no Brasil, com seu sotaque português e sua riqueza no trato.
Foi uma tarde diversa em que se falou de igualdade de uma maneira interessada e entre iguais, mesmo que tão diferentes.
Gratidão.


Helton Fesan

terça-feira, 25 de abril de 2017

O IDEAL É QUE CONSIGAMOS ARTICULAR SEM CONSPIRAR


Nas minhas consultorias muitas vezes me pego na situação de guerra corporativa. Isto ocorre porque o setor jurídico de uma empresa estará sempre ou quase sempre ligado ao setor litigioso, ou ilustrando melhor, de guerra.

O Ambiente corporativo não é um ambiente de paz, muito pelo contrário, é um ambiente de concorrência, de disputa. Todos querem dar o seu melhor em busca de superar o outro.

O setor jurídico é uma espécie de casa de armas e o advogado um conselheiro de guerra.

Uma empresa sem Advogado está indo pra guerra desarmado.

O papel do advogado é proteger o empresário dos ataques e muni-lo para atacar.

Muitas vezes neste ambiente eu sinto muitos empresários com certo desconforto em uma situação muito comum no mundo corporativo: o momento de agir em segredo.

Em algumas situações de conflitos e disputas de interesse o empresário é obrigado a  fazer reuniões secretas, a discutir assuntos longe dos olhos e ouvidos dos concorrentes.

Às vezes, a situação fica mais indigesta quando o concorrente já foi um aliado, um sócio.

E no meio da disputa lá está o advogado.

O que fazer então?

Criei então por conta própria e experiência uma divisão que talvez lhe ajude no momento de crise de consciência.

Vamos separar o que é Conspiração do que é Articulação. A regra é Articular sem Conspirar.

Articular, para nossa explicação será o conjunto de movimentos e negociações para se obter um objetivo de negócio.

Conspirar, por sua vez, será o um conjunto de ações que induzam alguém ao erro com o objetivo de lhe prejudicar em um negócio.

Pronto, assim fica muito fácil você diferenciar o que é ético do que não em um movimento comercial que envolva o segredo ou o sigilo, coisas tão comuns e necessárias nas negociações de empresas.

Dando um exemplos:

Numa concorrência de preço é normal que a empresa esconda seus valores para poder fazer uma oferta mais atrativa do que a do concorrente. Também é normal tentar descobrir os valores do concorrente para tentar oferecer oferta melhor.

Isto é concorrência, é a guerra do mercado.

Agora pense que uma empresa paga uma propina para o responsável de compras para ganhar a concorrência…

Isto é Conluio, é Conspiração, é falta de ética.

Outro exemplo muito comum: Dois sócios de uma empresa não suportam mais o terceiro sócio e querem retirá-lo da empresa. É óbvio que as negociações para que isso aconteça não serão abertas. Primeiro para evitar desgastes e bate bocas. Depois para que esta disputa societária não destrua a vida da empresa.

Haverá reuniões entre os sócios, entre advogados, contadores e só quando se tiver um plano consistente de valores e propostas se colocará as cartas na mesa de forma mais evidente e definitiva.

A situação é incômoda mas não é antiética.

Antiético seria se os dois sócios se unissem para roubar a parte do terceiro sócio, retirando-lhe da sociedade sem lhe pagar o devido.
Ou que esses dois sócios ocultasse do terceiro uma grande negociação e comprassem sua parte antes dela se efetivar, pagando preço menor do que o devido. Percebe que houve engano? Isto é conspirar…

Com esta divisão de forma firme na mente, o empreendedor deve ter a consciência que ser empresário é tomar decisões difíceis que muitas vezes não são nem agradáveis nem bonitas.

Estamos falando de guerra e numa guerra pessoas morrem.

É normal e até bom, ficar meio pra baixo depois de uma disputa sangrenta. O general que não se importa com as vítimas não é herói, é sádico.
Mas é preciso saber de que lado se está nesta disputa e até onde se deseja ir.

O ideal é Articular sem Conspirar. O limite que deve saber é você.

Dr Helton Fesan

Consultor Jurídico