O mito da democracia racial brasileira não resiste às investidas de sua maior questionadora, a realidade. Estatísticas econômicas e sociais somam-se a fatos corriqueiros, que vão desde a travada de porta do banco até a difusão maldosa da lenda de Macunaíma, denunciando a nossa fragilidade histórica em lidar com a diversidade.
O filme de Joel Zito Araújo, Filhas do Vento, toma o caminho inevitável do questionamento racial. Faz-se o que não se aceita em uma sociedade que tenta manter uma aparente tranqüilidade homogênea: divide-se o mundo em cores, ensejando o mover de águas turvas que traz à tona a lama da desigualdade em raças.
Esta opção daria ao filme, em uma hipótese mais branda, um dialogo com filmes como “A cor púrpura” de
Steven Spielberg. O preconceito como pano de fundo, uma presença parda do conflito racial que permearia a estória proposta, chamando a atenção para o invisível, para as coisas que existem no plano do sentido, mostrando vez ou outra, como realidade que vaza pra dentro da ficção, o racismo calcado na hipocrisia social.
A outra opção, mais dura e direta, é o conflito, o choque como já foi mostrado em “Faça a coisa certa” de Spike Lee, ou o recente “Quanto vale ou é por quilo” de Sérgio Bianchi. Neste caso inverte-se a ordem: A estória serviria como plano de fundo para a realidade, interferindo nesta de modo a realçar, ou até mesmo caricaturar, o real. Seria as cartas na mesa, o nome do jogo, o levante do oprimido encurralando o telespectador a tomar posição ou, ao menos, a encarar o caos.
Na busca do explicitar o real, Joel Zito, opta por subtrair a presença ariana, dominante social, focando o negro brasileiro. Para isto, não precisa criar uma ficção inverossímil, visto que a realidade brasileira da margem para este fenômeno.
No interior, em uma comunidade formada pela quase totalidade de negros, duas irmãs vivem com o pai. A notória diferença de gênios das irmãs e a predileção do pai por aquela mais dada à vida cotidiana em detrimento da outra que é sonhadora e idealista, desenha o que será o ponto de conflito. Na abertura, o reencontro das irmãs, já idosas, (Ruth de Souza e Léa Garcia) na igreja em uma noite de ventania, em razão do enterro do patriarca (Milton Gonçalves), sugere que este será o clímax do filme. Neste momento é possível ver a forte influência estética que o padrão “globo” irá emitir durante todo o filme, a cena é montada para resultar em algo épico, com um peso dramático que não irá se manter.
A estória retorna à adolescência das irmãs (Thalma de Freitas e Thaís Araújo) que vivem a tranqüilidade mineira de que falava Drummond.
Para uma, o paraíso da calmaria, onde se pode brincar, pecar e ver o tempo se arrastando lento. Para a outra, a prisão torturante da mesmice, minada com a possibilidade de trilhar o caminho que um dia sua mãe trilhou: ir embora desse inferno de tédio e jia.
A fuga deste inferno consuma-se com uma injustiça paterna, que não irá ser conciliada até o seu retorno, com sonhos realizados, para a cidadezinha que outrora deixou pra trás. A comparação do roteiro com “Tieta”, de Jorge Amado, é inevitável. Se o argumento é previsível, e isto não é necessariamente um defeito, a conclusão não é.
No religare passado e presente, o filme esbarra em temas paralelos, que, por conta do excesso de valoração, contaminam a estória principal. Ao longo da fita, são dados ao telespectador, fatos e falas que levam a uma superestimação dessas pequenas tramas, levantando temas pertinentes para o mundo real, mas dispensáveis na ficção sugerida. O resultado, como os temas não se fecham nem prosseguem, é uma sensação de inacabado, de algo faltando. O tema central não alcança o clímax sugerido e o filme fica morno.
“Filhas do Vento”, carrega um valor histórico no cinema nacional enquanto fato. Ser o maior elenco negro já filmado no país e ter um diretor negro (fato quase inexistente por aqui) é algo que não dá para ignorar, sendo, talvez, um marco na questão racial dentro do mercado cinematográfico. Neste aspecto o filme fez história.
Por outro lado, enquanto cinema, o filme não ousa nem em relação à estética, nem em relação ao conflito racial. Quem assistiu “A negação do Brasil” de Joel Zito, percebe que a ficção de “Filhas do Vento” repete o discurso do documentário, só que de forma amena, sutilizada, além de parecer se confundir o discurso de atriz ficção com o de atriz personagem, dando uma impressão de forçada de barra do tema.
No que diz respeito à sexualidade preserva-se uma opção convencional do cinema de estética padronizada, que “explora” a nudez feminina e esconde a masculina. Neste aspecto, repete-se a história.
“Filhas do Vento”, é uma rara oportunidade do negro brasileiro produzir um discurso próprio enquanto arte, e por conta disso, coloca o artista negro numa encruzilhada de difícil escolha: quando eu puder falar, falo de arte ou falo de mim?
O ideal, talvez, seja falar “de mim” enquanto arte e não “de mim” de modo artístico.