Perdoem-me a ausência É a esteira da vida que nos arrasta numa vertigem, que nos dá a Deus, que nos vende ao mundo. Perdoem-me. É o penetrar de corredores, o transpassar de porta, o carregar de pastas que por vez me ausenta de mim. Perdoem-me, é o tempo, é o tempo... Perdoem-me porque para perdoar cabe qualquer desculpa. Perdoar é ato nobre que só fará bem a vossas almas e sabemos que somos nós todos prodígios neste mister. Se não temos nobreza na compostura, na probidade, nas coisas simples e honestas, no mais básico sentido de cidadania é porque compensamos nossas falhas na divina capacidade do perdoar. Perdoamos os nossos que estão acima, e assim nos perdoam quem está abaixo de nós. Protelamos o cumprimento do dever por saber que seremos perdoados no prazo. Ao preço de futuramente também perdoarmos qualquer desídia. Até a pena posta não nos é tão grave, pois, para ela e para a fuga também caberá perdão. Peço o perdão sincero, que esquece totalmente a falta como se nada nunca tenha havido. O perdão que a cada eleição concedemos aos nossos políticos. Perdoem a si e a mim. Pelo mal português, pois somos egoisticamente maus leitores. Perdoem como deus nos perdoará depois e apesar de tudo. Perdoem a ausência e os pecados, sabendo que de outra vez não estarei, que outra vez pecarei.
“A gente demora pra comprar as coisas com tanto sacrifício e perde tudo num dia...” É a frase mais falada de todo e qualquer telejornal que se proponha a cobrir as enchentes em São Paulo. Perder de uma hora para outra tudo que se conseguiu com tanto sacrifício... O que isso significa? Muito Azar? Uma injustiça? Destino? Falta de planejamento... Fiquei analisando o ocorrido, triste e impotente como em regra são os telespectadores de telejornal. Uma casa ruiu, outra foi invadida pela água, outra foi levada pelo córrego e o pobre coitado perdeu tudo. O rosto aborrecido do prefeito lamenta a situação e nada aponta como solução prática, não por incompetência ou negligencia, mas por ela simplesmente não existir. Não existe solução prática para a destruição em grande escala. Nem se houvesse dinheiro sobrando (o que não há) se poderia chegar a uma “solução prática”. O que pode ser prático para alguém que perdeu tudo? Nada! Qualquer caminho será um difícil caminho de reconstrução. Solução prática é uma meta simbólica e desejável que serve tão somente de parâmetro para o inalcançável. Reconstrução! Talvez seja essa a palavra. Reconstruir é construir de novo. Fiquei pensando nisso e tentei chegar o mais perto da solução prática que não existe. Na prática as pessoas perderam casas, moradias... Então teremos que reconstruir moradias. Mas como? Como se constrói uma casa? Uma moradia digna? De novo me veio a sensação de impotência. Não sei construir casas... Mas quem constrói casas é pedreiro e não é tão difícil encontrar pedreiros, certo? Errado! O telejornal também me disse que está faltando mão de obra na construção civil e tinha um engenheiro reclamando disso... Peraí... Também tem o engenheiro, que é quem projeta as casas de modo que elas não caiam... O engenheiro também pensa nas complicações da casa em relação ao bairro, à cidade... Se cabe, se não cabe, se pode, se tem rede de energia elétrica, se tem rede de esgoto. O Engenheiro que faz a casa pede permissão para o engenheiro que ta na prefeitura que vai analisar o impacto no trânsito local, se o lugar da construção tem estrutura para receber aquela casa, na valoração ou desvaloração urbana, se o esgoto não vai entupir quando tiver muita água, quando chover... As casas perto do córrego tem projeto engenharia? Tem habite-se? Não importa. O que importa é que as pessoas eram donas da casa e perderam tudo. A casa tava lá, no nome dessas pessoas e agora elas não tem nada. Peraí... Casa no nome da pessoa é escritura. Tinha escritura? Mas isso custa dinheiro e as pessoas que lá estão são muito pobres, isso é uma verdade incontestável. Tiveram que deixar tudo pra traz. Roupas, televisão, DVD, Rádio, Mp3, Geladeira, micro-ondas, computador, ou seja, tudo. E o governo não lhes dá nada. Em alguns lugares não podia ter casas, era área de manancial. Não podia ter casa mas tinha asfalto, tinha água encanada, tinha rede elétrica... Sr não podia ter casa, porque tinha estrutura? Como se instala estrutura urbana onde não pode ser urbano? O engenheiro não viu isso? Mas a prefeitura não tem engenheiro pra dar de graça, pra ver tudo... Tudo bem que tem um projeto do governo estadual que envia verba para a prefeitura regularizar habitações irregulares ( regularização de núcleos habitacionais) mas a maioria dos prefeitos não se cadastraram. Agora não dá pra fazer nada. Pessoas perderam tudo. Não tinha registro, não tinha habite-se, não tinha projeto aprovado por engenheiro, laudo técnico, autorização do setor de habitação, escritura, segurança... Não tinha nada, mas as pessoas iam vivendo lá sem que a prefeitura dissesse nada... Tudo meio irregular, meio improvisado, mas e daí... ninguém diz nada e nem tem nada com isso... Pra que implicar com essa gente pobre, cobrando delas documentos e laudos. Pra que mexer com o prefeito que faz de um tudo pra esquecer dessa gente que não tem nada? Mas como é que quem não tem nada, consegue perder tudo?