sexta-feira, 22 de julho de 2011

Entrevisa Conexão - Afrodescendentes

Não tinha visto a entrevista ainda, achei legal.
Agradeço a competência e a simpatia de toda a equipe do Conexão bem como a elegância e bom humor da entrevistadora Nadia Nicolau.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

PEÇO PERDÃO


Perdoem-me a ausência
É a esteira da vida que nos arrasta numa vertigem, que nos dá a Deus, que nos vende ao mundo.
Perdoem-me.
É o penetrar de corredores, o transpassar de porta, o carregar de pastas que por vez me ausenta de mim.
Perdoem-me, é o tempo, é o tempo...
Perdoem-me porque para perdoar cabe qualquer desculpa.
Perdoar é ato nobre que só fará bem a vossas almas e sabemos que somos nós todos prodígios neste mister.
Se não temos nobreza na compostura, na probidade, nas coisas simples e honestas, no mais básico sentido de cidadania é porque compensamos nossas falhas na divina capacidade do perdoar.
Perdoamos os nossos que estão acima, e assim nos perdoam quem está abaixo de nós.
Protelamos o cumprimento do dever por saber que seremos perdoados no prazo. Ao preço de futuramente também perdoarmos qualquer desídia.
Até a pena posta não nos é tão grave, pois, para ela e para a fuga também caberá perdão.
Peço o perdão sincero, que esquece totalmente a falta como se nada nunca tenha havido. O perdão que a cada eleição concedemos aos nossos políticos.
Perdoem a si e a mim. Pelo mal português, pois somos egoisticamente maus leitores.
Perdoem como deus nos perdoará depois e apesar de tudo. Perdoem a ausência e os pecados, sabendo que de outra vez não estarei, que outra vez pecarei.


Helton Fesan

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ENCHENTES NO ABC - QUANDO A ÁGUA BATE NA BUNDA...


Por volta das quatro, enquanto digito qualquer coisa, me incomodo com o vento misturando no chão os documentos que deveriam estar na mesa.
Olho pela janela e encontro a Av. Perimetral barulhenta e movimentada como veia aorta de Santo André.
Uma escuridão no horizonte, um barulho de sirene, uma, duas ambulâncias seguem sentido paço municipal.
Imagino algo ruim e penso que vou descobrir mais tarde no noticiário.
Volto ao computador. Ouço um helicóptero e imagino assalto à banco na Senador Flaquer. Guardo a curiosidade para o noticiário das oito.
Começa a chover, corro para fechar a janela enquanto praguejo alguma coisa sobre molhar papéis na mesa e pergunto para a sócia se a goteira da sala ao lado foi consertada.
Ligo para a esposa. O bebê ta na escolinha e só dá pra buscar depois da chuva.
As luzes apagam e acendem várias vezes. Melhor desligar o computador.
Tudo apagado. Finjo preocupação com as vítimas das enchentes no Rio e em áreas pobres de São Paulo...
“Aqui não enche”.

Vou enfrentar a chuva e descer a Pereira Barreto sentido Parque Oratório.
Tudo trancado, fico ensopado ao abrir o carro. Entro e tudo bem, é só água...
A Álvares de Azevedo está um caos. A rua Monte Casseros é um rio. “Mas como? Aqui é alto...”
Insisto e vou sentido Av. Portugal. Descendo ao encontro da Campos Salles, descubro que minha cidade já não existe como antes. Não há asfalto nem lojas... Apenas o Tamanduateí engolindo a Av. dos Estados e visitando o centro.
A estação de trem, o terminal rodoviário, a velha Av. Industrial que hoje abriga shoppings estão à mercê da lama.
Meu carro perde o controle de si e desfalece. Também eu já não o controlo. Estamos à deriva. Busco a janela e por ela escalo o teto. Ainda lamento o prejuízo, a perda do símbolo classe média de quatro rodas.

Já não finjo preocupação com as vítimas de outras enchentes, já não dá pra deixar para o noticiário das oito. Eu sou o noticiário das oito...
Finalmente não há mais carro nem teto. A água bate na bunda.
Vou andar. Tatear com os pés o chão que conheço a mais de vinte anos. Não são os mesmos, a água me abraça e um bueiro me chama.
Minha terra, minha água.

A cidade se afoga com meu corpo entalado na garganta.

Helton Fesan

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A ALMA DO NEGÓCIO.


Desde pequeno Joãozinho foi incentivado pelos pais a ter um ofício.
Ferramentas de plástico, calculadoras luminosas, caixinhas registradoras e ate kit salão de beleza, faziam parte da enorme caixa de brinquedos.
Seus pais, antenados, respondiam a qualquer estímulo do mercado e se apressavam em inventar atividades que levassem o menino a um posto profissional seguro.
Era compreensível.Nos altos e baixos do cotidiano, os pais de Joãozinho sabiam que dentre as desgraças do destino, ficar desempregado era das mais temidas.
Pior até que a morte, com a qual são conformados os viventes, mas a fome...
Os pais de Joãozinho são da geração do choque da automação, que temem o domínio das máquinas e presenciaram filas de produção serem extintas.
Daí o conselho - Joãozinho, você precisa fazer algo que uma máquina não consiga.
Com esse conselho Joãozinho cresceu e resolveu ser artista, músico, pois a sensibilidade humana é algo que vem da alma e alma, uma maquina não teria jamais.
Já adulto assistiu incrédulo à Inteligência Artificial e chegou a pegar birra da história de pinóquio quando percebeu a metáfora da busca da máquina por uma alma.
Mais adequado lhe parecia a Noite dos Mortos Vivos, onde Zumbis seriam maquinas sem alma, devorando a Humanidade.
Um dia Joãozinho foi (malditamente) presenteado com um software que compunha canções.
Duvidou.
Com o sax em frente da tela, soprou as primeiras notas e viu surgir uma lista de opções com escalas musicais.
Bastava clicar e ouvia das caixas infernais surgirem melodias possíveis a partir de suas notas iniciais.
Seu Coração quase parou, quando ouviu a um Clik, surgir a melodia que antes imaginara.
Seus olhos encharcaram-se e iniciou um choro soluçante.
Era o começo do fim...
Chorou e chorou como nunca antes havia chorado um ser humano.
Um choro profundo, compungido, uma dor de luto.
Foram três dias até curar-se.
Apontando para a tela sentenciou:

“Nem choro, nem riso. Minha dor, minha alegria, sempre lhe será alheia”.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

LIDERANÇA


O que antecede um líder
As pessoas buscam diariamente, incessantemente, obsessivamente o destaque. Por isso é tão importante para elas ser um líder, pois, o líder se destaca, aparece, se diferencia… mas… Não estão estas pessoas buscando o certo pelos motivos errados? Querer a liderança como um elemento de status é uma atitude ética?
Na verdade a frase "eu quero ser um líder" me soa tão vazio quanto dizer eu quero ser nada. Se a busca é tão somente pela liderança, temo dizer que você está no caminho errado.
Você não precisa ser um líder (no sentido de comando) para ser um vencedor. Bons profissionais são vencedores estejam eles em cargos de chefia ou não. Saber ser comandado e executar um trabalho com precisão são qualidades preciosas e disputadas no mercado de trabalho.
Basta olhar os exemplos esportivos. No vôlei, no futebol, os atletas brilham ao ajudar suas equipes e são lembrados e festejados pelos torcedores, porém não são todos líderes, na verdade, destacam-se aqueles que sabem ser liderados.
É necessário se ter uma meta, um objetivo. É preciso querer realizar algo, atingir um fim maior e considerar que para atingir este fim será necessário o envolvimento de outras pessoas; e que estas pessoas precisarão de um líder; e que talvez este líder possa ser você.
Percebeu o raciocínio? Se ao pronunciar a frase "eu quero ser um líder" você pulou algum dos estágios anteriores, bem provável que sua motivação seja tão somente um ato de egoísmo. Sonhe alto, mas lembre-se que liderança e status são conseqüências. Trabalho e meta são os principais.
A fábrica de líderes enlatados
Essa busca em mostrar que se é um líder desenvolveu o que chamo de “fabrica de líderes enlatados”. Basta vasculhar a internet, ou prateleiras de livros de auto-ajuda ou cursinhos de administração que encontraremos algumas receitas prontas para se tornar um líder. Aperte tal botão e terá tal resultado. No seu caso específico, qual a serventia e característica de uma liderança necessária.
Digo que cada caso é único e não se pode ter receitas prontas para criar um líder. Se esta é sua necessidade (tornar-se um líder para realizar algo) vá além e trilhe o caminho que os grandes trilharam. Não se conforme com a leitura rasa. Aprofunde-se nos teóricos e aplique estas teorias na vida prática.
Não seja manipulado. Todos nós gostamos de metáforas, mas, entendida a mensagem é hora de se aprofundar. Fuja da fábrica de líderes enlatados encarando os desafios de forma técnica e aprofundada. Liberte-se!
Dê o grande salto (Yucumã) e transpasse o abismo entre ação e pensamento.
Seja líder de sua vida!
Já tomou as “rédeas” de seu destino? Você realmente domina sua vida? Trabalha com o que gosta ou com o que tolera?
Será que não está acovardada (o) vivendo uma vida que não é sua, em um emprego que não é seu, com verdades que você não acredita, usando a desculpa de que “precisa de dinheiro”?
Não estou sugerindo que você abandone o emprego de uma hora para outra, mas que tenha a consciência de sua própria vida. Se o seu atual emprego não lhe agrada, mas é indiscutivelmente sua única opção no momento, é hora de traçar um plano urgente para ter mais opções.
Agora, se já existem outras opções e a verdadeira razão de você continuar neste emprego é a covardia, por favor, tenha a decência de mudar de atitude ou pare imediatamente de ler este texto.
Tenha coragem e esteja disposto a pagar o preço, não há outro caminho para a liderança.
Quem conhece o caminho guia.
Você já tem certeza do caminho que deseja seguir. Está apto a guiar os demais nesta viagem?
Não há problema em ainda estar indeciso. Sempre haverá tempo de se apaixonar.
Apaixone-se por algo. Por uma causa, por um trabalho, por um “fazer”.
Melhor. Apaixone-se por vários fazeres!
Descubra qual deles você deseja e está preparado para executar e execute. Se ainda não está preparado para executar nenhum, prepare-se. O importante é ir para a prática e descobrir seu caminho. Só então poderá guiar outras pessoas por ele.
Então, pé na estrada!
Características do Líder Real
Em todo texto há sempre uma lista de qualidades/competências que se espera de um líder ou de alguém que deseja tornar-se um líder (vide o início do texto).
Também darei minha lista mas com um diferencial. Não acredito que estas qualidades sejam exclusivas da liderança. São qualidades que todos nós devemos cultivar, lideres e liderados, para a construção de uma sociedade melhor em todos os aspectos. Então vamos a elas:

A) VIRTUDE – Não cultive pequenos delitos, poucas falcatruas, uma ou outra mentira, alguma indiscrição… São pequenas raposas que destruirão sua plantação. Não terá alicerce no dia em que teu caráter for testado.

B) SEGURANÇA - Não murmure, não reclame - Murmurar, segundo o Dicionário Aurélio: ü Dizer mal; maldizer; conceber mau. A boca só fala o que farta no coração. A reclamação é sinal de insegurança, quem seguirá um líder que reclama o tempo todo? Que segurança pode passar o inseguro. O maldizer contamina, a ti próprio e a quem te cerca.

C) ATITUDE - “espírito prático”, como diria Gramsci; Abismo entre pensamento e ação inaugurado por Platão; é necessário fazer, por em prática.

D) CONHECIMENTO – Muito pode ser falado sobre liderança, mas, na prática, o conteúdo é o que geralmente decide. É necessário aprimoramento naquilo que se deseja trabalhar. Leitura, pesquisa e graduação no ramo em que se pretende atuar são essenciais para um líder e para qualquer profissional.

E) INCERTEZA SAUDÁVEL – Não adote posturas definitivas ou radicais em assuntos polêmicos e transitórios.Só entre em discussões nas quais você esta verdadeiramente disposto a mudar de opinião. Se não lhe convencerem, ótimo, aumentou sua convicção. Se lhe convencerem, melhor ainda, provavelmente terá aprendido algo novo.

F) DOMINE A LINGUAGEM - Falar e escrever bem são os veículos universais de idéias, sem eles não é possível ir a lugar nenhum e menos ainda guiar os outros. Invista no seu idioma e, após, aprenda e aprimore outros.

G) EMPREENDEDORISMO – Inicie novos projetos e negócios, o país agradece. Se não existe mercado, crie.

H) SOLIDARIEDADE – Seja humano, observe o mundo ao seu redor e preocupe-se com ele. Dê a sua contribuição para o desejado “Mundo Melhor.”

I) DIVERSIDADE – Conforme-se, aceite e aproveite o fato do mundo não ser igual a você. Existem mais coisas, mais formas, mais culturas, mais religiões e não religiões. Tudo isto é ótimo, prova que somos humanos.

J) REDE DE CONTATOS – Sua rede de contatos começa com seus professores. Que tipo de aluno você tem sido? Cerque-se de pessoas que somam, que acrescentam. Das outras, aproxime-se para oferecer ajuda.

K) VALORIZE A FAMÍLIA – O relacionamento que você tem com a sua família irá permear todos os outros relacionamentos.

L) FOCO – Considere aquilo que é fundamental e comece por aí, depois abra o leque devagar para não perder o principal.

M) SEJA HUMILDE E USE O SISTEMA – Busque as coisas que já existem e que pessoas se dedicaram para construir antes de você. Aproveite este trabalho e aperfeiçoe-o.

N) CONHEÇA A TECNOLOGIA – Não seja refém da sua época. Aprenda a manusear as tecnologias que estão ao seu alcance e colabore para a proliferação deste conhecimento.

O) NÃO SE DESLUMBRE – Tudo é efêmero.

P) RESPEITE-SE – Você é o mais importante, não se agrida, não se coloque em situações indesejáveis, não viole seus princípios e sua natureza.
Lembre-se que no final a escolha é sempre sua. Se você sente que nasceu para correr – CORRA! Para voar – VOE!
Mas por favor – NÃO DESISTA DOS SEUS SONHOS.

Helton Fesan

terça-feira, 3 de agosto de 2010

EXPOSIÇÃO - AFRICA EM NÓS


Quer visitar Santo André.
Ver um muito de Africa que há em nós. Está é uma ótima oportunidade. Venham e divulguem. Conhecer para incluir.

Data 10 a 31 de agosto.
Abertura 10/08 19:00h

CLIK NA IMAGEM E VEJA O TEXTO

Entrada Franca

Informações - 4433 0605 / 4433 0425/ 4992 7730.

domingo, 11 de julho de 2010

VINICIUS, TRABALHO E ACESSO DO POETA


Hoje me peguei pensando em Vinícius de Moraes, o poeta de corpo e alma. Grande poeta, grande boêmio. Uma força criativa da Natureza.
Até então só havia me dedicado a audição de sua arte, ao deslumbre de sua obra, mas, com a facilidade interativa patrocinada pela Google tive a curiosidade de conhecer um pouco da biografia desse gênio brasileiro.
O material é farto. Me chamou a atenção uma auto denominação cantada pelo poetinha: “Sou o branco mais negro do Brasil.”
Frase de efeito, bem riscada e recheada de uma ideologia contestadora do jeito que cabe aos poetas.
Vinicius não nasceu pobre. Há bem da verdade deve-se dizer que era rico e com uma rica tradição. ”...seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais d. Lydia Cruz de Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes” .
Tinha berço o poétinha.
Batizado na maçonaria por disposição do avo, estudou no “Colégio Santo Inácio, na rua São Clemente, onde conheceu gente como Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este, sobrinho de Raul Pompéia”, (amigos de infância).
Era meu colega, Bacharel de Direito da Rua do Catete. Mas não tinha vocação para a advocacia, ramo apertado em regras e prazos que por certo sufocariam o poeta, que era poeta e vivia a vida de poeta como constatou Drummont.
Há gente que não considera arte como trabalho. Você diz: “Sou escritor”; e a pessoa completa: “mas trabalha com quê?”
Já tentou escrever um livro? Um conto? Uma matéria de internet? Pois é...
Escritor, poeta, blogueiro... Tudo isso é trabalho e dá trabalho. Posso ouvir a voz de meu pai dizendo: “trabalho é algo que alguém te paga pra fazer, se você faz de graça é hobby”.
Mas meu pai é sem graça como todo pai. Fica se preocupando com detalhes como aluguel e comida, enquanto o mundo precisa é de poetas como Vinícius, que não se preocupavam com esses detalhes materiais.
Tô brincando.
Todo mundo se preocupa com o material. Até o poeta que desde muito cedo trabalhou como escritor e compositor e era Bacharelado em Letras. Mais tarde, formou-se como Oficial da Reserva (CPOR). Substituiu Prudente de Morais Neto, como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica, foi Diplomata, escreveu críticas de cinema, colaborou com jornais e revistas, foi agitador cultural (dos bons) e de quebra estudou cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Ou seja, trabalhou pra caramba o poétinha.
Mas a bola que eu quero levantar não é a do poeta, que já tem a bola no espaço infinito. Quero me ater à questão do acesso.
Aqui o meu texto dá uma virada e fica meio sisudo, mas vale à pena.
Já pensou em quantos poetas estão “esnucados” (pra quem joga bilhar) numa situação de falta de acesso. Quanto vale saber ainda na infância que existe uma escola de Oficiais e que existe uma carreira militar.
Já perceberam que na biografia de grandes personagens sempre aparece o nome da escola primária seguida dos amigos de infância que estudaram na mesma sala e que se tornaram “gente importante”.
Pôxa, é impossível concorrer. Tem gente que começa o network no berçário...
Quanto vale o acesso a uma escola básica decente?
E para ser diplomata? O português perfeito deve vir seguido do inglês mais que perfeito. Como adquirir tal fluência se o máximo de cultura da população é novela que diz “Eu amo ela, Eu amo ela da galinha?”
Acesso!
Quem sabe das coisas desde cedo leva vantagem na vida.
Já ouvi falar de gente que faz tradução livre de coisa que lê no inglês, no Frances, no alemão... e publica como texto inédito no português. Faz isso porque tem acesso e a maioria das pessoas não. Assim o plágio se torna genial. Quem vai saber?
Quanto vale um o acesso a um segundo idioma? Uma ida ao museu ainda na infância? Conhecer teatro e realmente ler os clássicos da literatura?
A maioria dos brasileiros não teve acesso às mesmas coisas que Vinícius e seus amigos.
Se fizermos o recorte racial (já que Vinícius era o “branco mais negro do Brasil”) a questão do acesso vira piada de mau gosto.
O negro representa nada em termos de diplomacia no Brasil, por isso há o programa de bolsa para negros nesta área.
Em matéria de network então... Na minha biografia vai constar que estudei no EEPG Profª Maria de Lourdes Guimarães, em Santo André, onde conheci gente como Esquerdinha, Bolinha, Waltão, Tripa e Pelézinho (em memória).
(Desculpa se me esqueci de alguém e aproveito pra mandar um salve pros manos do outro lado da muralha, vida loka é nóis).
Fica difícil quando não se tem acesso ao básico.
Como se pode ver, A negritude de Vinícius não estava na biografia, nem na afrodescendência. Tinha uma negritude de curioso sincero, deslumbrado com a religiosidade e musicalidade do negro. Amava nosso gingado, nossa mandinga e nossas mulheres.
Se bem que de seus nove casamentos nenhum se deu com mulher negra ou pobre. Talvez a baiana Gesse (a bruxa) possa fechar essa lacuna. Em todo caso, amava-nos platonicamente como cabe aos poetas.
Olhando sua intensa jornada neste planeta penso que não deve ter sido fácil fazer os sambas que Vinícios fez, sem contar piada (pois quem faz samba assim não é de nada) .
Fácil foi, para alguém com sua formação, se considerar e ser considerado o branco mais negro do Brasil.
Um orgulho para os brancos ou para os negros?
Para os brasileiros, claro.
Seria igualmente fácil se ele resolvesse ser o branco mais branco do Brasil ou se nascido negro resolvesse ser o negro mais branco do Brasil.
Mas penso que talvez, difícil... Mas difícil mesmo, é decidir ser o negro mais negro do Brasil, no Brasil.

Helton Fesan é fã de Vinicius e Johny Alf.