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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Levanta que o Jogo é de Várzea



A garganta seca, o peito estourando, o suor escorrendo pela testa e ardendo nos olhos.
Várzea é isso.
Uma campina aberta de terrão vermelho, um sol castigando o lombo, uma bola, um objetivo e vinte e dois fulanos entregando a vida por este objetivo.
Nem sempre é sol.
As vezes chove como nos dias de Noé e os vinte e dois fulanos parecem caranguejos aterrados no mangue. É o instinto que diz quem tá no time de quem.
 É a vida meu amigo, é a vida.
Ninguém vai sentir dózinha de ti. Ninguém liga se tu não tomou café da manhã, se teu chefe te dá nas bolas ou se tua mulher se atraca com outro bigodudo...
Aqui o que interessa é fazer gol.
Foi falta! Se o juiz não apitou segue o jogo. Não foi falta! Se o juiz apitou, cobra e segue o jogo. De todo jeito o jogo segue. Aqui não se discute justiça, se discute futebol.
E o que é futebol?  É a vida.
Confesso que de vez em quando se leva uma entrada desleal, maldosa, que poderia quebrar as pernas...
Mas não quebrou. Doeu! Pra cara...
Mas não quebrou.
Então meu camarada, não chora não, levanta que o jogo é de várzea.
E segue o jogo.

Helton Fesan

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

NO FIM DO DIA


No fim do dia, quando cair a tarde procure um bar humilde, freqüentado por pessoas humildes. De preferência ao balcão onde cada mundo disputa seu espaço ombro a ombro.
Peça cerveja
Não importa seu ranço calvinista que exige moderação com o álcool no meio da semana, nem seu narcisismo obcecado em livrar-se da barriga, não importa.
Guarde o whisky para encontros musicais com a turma da esquina e o vinho para o romance inventado com cara de reconciliação.
Nesta boca de noite, sente-se na roda dos comuns e aja com decência, peça cerveja.
Hei a bebida dos humildes desde que se colhe o trigo e que se separa do trigo o pobre e desprezado joio.
Com a caneca de cerveja na mão e o cotovelo no balcão para sustentar o tal do mundo que pesa nos ombros, observe ao redor os que te acompanham anonimamente neste brinde calado e solitário.
Veja que há em cada um a vontade reflexiva de se encontrar em si mesmo, mesmo que para isto se deva falar com o outro.
Ninguém ali ganhou um Nobel, ou inventou qualquer remédio, mesmo que seja para curar cansaço que este todos sabemos que o remédio quem nos deu foi o criador.
São poetas de obras e calos, oradores de verdades de si, cancioneiros de pé de rádio. São gente como eu sou, como tu o é.
Não importa o terno ou a gravata ou a armadura com motor que te levará a tua casa no final do dia. Nada disto pode esconder ou disfarçar a pele e osso de que todas as pulgas como nós são feitas.
A verdade é que no balcão todos esperam para ser servidos e todos sabem que pagarão pelo trago do final do dia. Somos companheiros de Jó e com ele estávamos quando fundaram e inventaram o mundo.
Por isso, senta-te no balcão e pede tua cerveja como todos os simples para lembrar-te de quem é e do que não é.
Brinda calado com teus iguais.

Helton Fesan

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

UM BRASIL QUE NÃO LÊ, NÃO LÊ POR QUE?


O Brasil é um país que não lê.
Infelizmente a assertiva acima é uma realidade que assola nosso país, porém, tais discussões parecem não se refletir na sociedade.
Ainda é comum ouvir de pessoas de todas as idades a incomoda frase: “Eu não gosto de ler”.
Pode-se analisar e deduzir de várias maneiras a declaração de asco pela leitura: que é uma questão de gosto, de costume, de incentivo e etc. Todavia, pode-se também problematizar a declaração com uma nova questão: “Não gosta de ler o quê?”
Neste ponto, teremos que voltar nosso olhar para o ambiente escolar, maior referência de leitura e formação de leitores de nossa sociedade e analisar o “quê” e “como” é disponibilizado o material de leitura na formação do aluno.
Em breve busca para as atuais políticas de incentivo à leitura e nos órgãos que, direta e indiretamente ditam as regras de adequação literária a serem implantadas no momento de escolha, aquisição e disponibilização do livro em sala de aula vemos um avanço tímido após a comemorada lei 10.639/2003.
Certo que, a exemplo da ocupação de outros espaços culturais, também a literatura não se mostrou como reflexo fiel, ou ao menos próximo da nossa sociedade. Muito calcada em uma ideologia Européia, quando não seguindo uma política de higienização racial, a escrita é um dos maiores instrumentos de resistência dominante de uma elite branca, refletindo o modelo idealizado por estes e travando uma intensa labuta na mantença do status quo.
Já peço desculpas pelo uso de termos como “elite branca” e “status quo”, que pelo excesso já tornaram-se lugar comum de uma irritante cantilena de classe. Porém é igualmente irritante e insuportável os repetidos artifícios da classe dominante para não alterar o modelo de sociedade que lhe beneficiam.
Dentre estes artifícios, a escrita e a leitura são, sem dúvida, símbolos de poder e civilidade superior, que combinam perfeitamente com ideologias de dominação.
Por estes motivos, minorias de nossa sociedade (e aqui lembramos que o termo minoria não esta ligado ao fator quantidade e sim ao acesso e retenção de direitos) não foram contemplados como criadores de textos ou como leitores em potencial.
Tratando da condição específica dos negros brasileiros, estes foram por longa data vedados do direito à educação. Por óbvio que criou-se um exército de analfabetos.
Não era necessário (nem desejável) criar uma literatura que contemplasse estes recém libertos e incômodos moradores que, inclusive, desejava-se eliminar da sociedade com uma política de embranquecimento social, a saber, a Eugenia.
Com isto, evidenciou-se uma política em larga escala de exclusão literária, ou exclusão de leitores.
É necessário lembrar que, a nossa sociedade em meados da abolição, quando dois terços dos negros brasileiros já eram libertos ou, auto-libertados em quilombos e afins, já somavam coisa de oitenta por cento da população.
Mesmo com a importação em massa de imigrantes, que, em regra também eram analfabetos, não seria possível “letrar”, ou ao menos alfabetizar a massa da sociedade brasileira sem beneficiar também a população negra, o que, como já dito, não era desejável.
Tais fatores históricos nos dão uma hipótese da formação de um povo que não lê, mas é pouco para explicar, ou ao menos começar a entender, a cristalização deste estado de coisas.
O abandono de políticas Educacionais e, mais especificamente de políticas de leitura, podem ser um referencial desta procura, mas, talvez, o modelo dessas escassas políticas, e a forma de sua implementação, possam nos revelar um pouco mais sobre o tema.
Se houve negligencia (ou sabotagem) com leitores em potencial, não foi diferente com os escritores que se dispuseram a retratar a pluralidade social.
A escrita étnica vive até hoje um ostracismo criado pelo mito da “democracia racial”. Há ongs como o Quilombhoje. que agrupam escritores motivados tão somente pelo idealismo de uma literatura brasileira igualitária.
Também louváveis iniciativas acadêmicas como a Universidade Federal de Minas Gerais – letras, que mantém um grupo de pesquisa de literatura afrobrasileira e o portal LITERAFRO, no qual se encontra importante amostra de escritores.
O Brasil, que em muitos aspectos é o criador da hipocrisia legalista, com a falsa ideologia de harmonia de raças em sua sociedade, acabou por marginalizar toda e qualquer discussão ou manifestação que visasse levantar hipóteses de tratamentos desiguais motivado por discriminação racial. Bastava, e ainda basta em alguns casos, afirmar-se que “No Brasil não existe preconceito” e qualquer projeto ou manifestação com este teor estava imediatamente descartada.
A cruel sabedoria deste dispositivo consiste em acusar de racista justamente quem deseja discutir o racismo. Neste diapasão excluiu-se, e ainda se exclui escritores cujo tema central é o embate racial da sociedade brasileira.
Se a discussão racial não contempla o universo desejado nos livros, não é diferente quando se fala na vivência e dramas da população negra. Durante muito ano, ignorou-se qualquer possibilidade de romantizar ou dramatizar o cotidiano do negro.
Tal exclusão dá-se basicamente no âmbito acadêmico, ou da literatura considerada boa ou clássica.
Quando contemplada a existência de tais personagens, aeram condenadas a papéis subalternos e ou ridicularizados, o que, por óbvio não era a melhor opção de introdução de leitura para quem se identificasse com tais personagens.
Assim, a população excluída não lia, pois, não o sabia, e, quando o sabia, não lia, pois, não se reconhecia.
Evento semelhante ocorreu na teledramaturgia brasileira, o que é genialmente tratado pelo documentário A Negação do Brasil de Joel Zito Araújo.
Esta exclusão literária, infelizmente não era, e não é, desabono exclusivo da população negra. Em larga escala o mesmo se faz com o índio (que enclausurou-se como “folclore” no mundo literário) e, em outra proporção, com a mulher o deficiente e outras minorias que ainda hoje lutam por lugar ao sol social brasileiro.
Necessário dizer ainda, que a origem racial do produtor do texto, também importava, e ao que tudo indica ainda importa, no momento da seleção, aquisição e disponibilização do livro.