
O Brasil é um país que não lê.
Infelizmente a assertiva acima é uma realidade que assola nosso país, porém, tais discussões parecem não se refletir na sociedade.
Ainda é comum ouvir de pessoas de todas as idades a incomoda frase: “Eu não gosto de ler”.
Pode-se analisar e deduzir de várias maneiras a declaração de asco pela leitura: que é uma questão de gosto, de costume, de incentivo e etc. Todavia, pode-se também problematizar a declaração com uma nova questão: “Não gosta de ler o quê?”
Neste ponto, teremos que voltar nosso olhar para o ambiente escolar, maior referência de leitura e formação de leitores de nossa sociedade e analisar o “quê” e “como” é disponibilizado o material de leitura na formação do aluno.
Em breve busca para as atuais políticas de incentivo à leitura e nos órgãos que, direta e indiretamente ditam as regras de adequação literária a serem implantadas no momento de escolha, aquisição e disponibilização do livro em sala de aula vemos um avanço tímido após a comemorada
lei 10.639/2003.
Certo que, a exemplo da ocupação de outros espaços culturais, também a literatura não se mostrou como reflexo fiel, ou ao menos próximo da nossa sociedade. Muito calcada em uma ideologia Européia, quando não seguindo uma política de higienização racial, a escrita é um dos maiores instrumentos de resistência dominante de uma elite branca, refletindo o modelo idealizado por estes e travando uma intensa labuta na mantença do
status quo.
Já peço desculpas pelo uso de termos como “elite branca” e “
status quo”, que pelo excesso já tornaram-se lugar comum de uma irritante cantilena de classe. Porém é igualmente irritante e insuportável os repetidos artifícios da classe dominante para não alterar o modelo de sociedade que lhe beneficiam.
Dentre estes artifícios, a escrita e a leitura são, sem dúvida, símbolos de poder e civilidade superior, que combinam perfeitamente com ideologias de dominação.
Por estes motivos, minorias de nossa sociedade (e aqui lembramos que o termo minoria não esta ligado ao fator quantidade e sim ao acesso e retenção de direitos) não foram contemplados como criadores de textos ou como leitores em potencial.
Tratando da condição específica dos negros brasileiros, estes foram por longa data vedados do direito à educação. Por óbvio que criou-se um exército de analfabetos.
Não era necessário (nem desejável) criar uma literatura que contemplasse estes recém libertos e incômodos moradores que, inclusive, desejava-se eliminar da sociedade com uma política de embranquecimento social, a saber, a
Eugenia.
Com isto, evidenciou-se uma política em larga escala de exclusão literária, ou exclusão de leitores.
É necessário lembrar que, a nossa sociedade em meados da abolição, quando dois terços dos negros brasileiros já eram libertos ou, auto-libertados em quilombos e afins, já somavam coisa de oitenta por cento da população.
Mesmo com a importação em massa de imigrantes, que, em regra também eram analfabetos, não seria possível “letrar”, ou ao menos alfabetizar a massa da sociedade brasileira sem beneficiar também a população negra, o que, como já dito, não era desejável.
Tais fatores históricos nos dão uma hipótese da formação de um povo que não lê, mas é pouco para explicar, ou ao menos começar a entender, a cristalização deste estado de coisas.
O abandono de políticas Educacionais e, mais especificamente de políticas de leitura, podem ser um referencial desta procura, mas, talvez, o modelo dessas escassas políticas, e a forma de sua implementação, possam nos revelar um pouco mais sobre o tema.
Se houve negligencia (ou sabotagem) com leitores em potencial, não foi diferente com os escritores que se dispuseram a retratar a pluralidade social.
A escrita étnica vive até hoje um ostracismo criado pelo mito da “democracia racial”. Há ongs como o
Quilombhoje. que agrupam escritores motivados tão somente pelo idealismo de uma literatura brasileira igualitária.
Também louváveis iniciativas acadêmicas como a Universidade Federal de Minas Gerais – letras, que mantém um grupo de pesquisa de literatura afrobrasileira e o portal
LITERAFRO, no qual se encontra importante amostra de escritores.
O Brasil, que em muitos aspectos é o criador da hipocrisia legalista, com a falsa ideologia de harmonia de raças em sua sociedade, acabou por marginalizar toda e qualquer discussão ou manifestação que visasse levantar hipóteses de tratamentos desiguais motivado por discriminação racial. Bastava, e ainda basta em alguns casos, afirmar-se que “No Brasil não existe preconceito” e qualquer projeto ou manifestação com este teor estava imediatamente descartada.
A cruel sabedoria deste dispositivo consiste em acusar de racista justamente quem deseja discutir o racismo. Neste diapasão excluiu-se, e ainda se exclui escritores cujo tema central é o embate racial da sociedade brasileira.
Se a discussão racial não contempla o universo desejado nos livros, não é diferente quando se fala na vivência e dramas da população negra. Durante muito ano, ignorou-se qualquer possibilidade de romantizar ou dramatizar o cotidiano do negro.
Tal exclusão dá-se basicamente no âmbito acadêmico, ou da literatura considerada boa ou clássica.
Quando contemplada a existência de tais personagens, aeram condenadas a papéis subalternos e ou ridicularizados, o que, por óbvio não era a melhor opção de introdução de leitura para quem se identificasse com tais personagens.
Assim, a população excluída não lia, pois, não o sabia, e, quando o sabia, não lia, pois, não se reconhecia.
Evento semelhante ocorreu na teledramaturgia brasileira, o que é genialmente tratado pelo documentário A Negação do Brasil de Joel Zito Araújo.
Esta exclusão literária, infelizmente não era, e não é, desabono exclusivo da população negra. Em larga escala o mesmo se faz com o índio (que enclausurou-se como “folclore” no mundo literário) e, em outra proporção, com a mulher o deficiente e outras minorias que ainda hoje lutam por lugar ao sol social brasileiro.
Necessário dizer ainda, que a origem racial do produtor do texto, também importava, e ao que tudo indica ainda importa, no momento da seleção, aquisição e disponibilização do livro.